domingo, 10 de junho de 2012

"The Adventures of Tintin", Steven Spielberg

Hergè quando soube que Steven Spielberg queria adaptar para o cinema Tintin disse: "Vou ser traído; mas com ele, vou sê-lo talentosamente". Isso aconteceu pouco antes da morte do autor de BD, em 1983. E segundo conta Fanny, viúva do autor belga, ele acreditava que apenas o realizador de E.T. seria capaz de levar a sua magistral criação para o grande ecrã. Hergè havia ficado encantado com o primeiro trabalho de Spielberg, Duel (1971), uma vez que, assim como as suas pranchas, o filme tirava a sua força de uma economia de elementos narrativos e parecia divertir-se chamando o espectador para um jogo de mostra-e-esconde, preferindo antes sugerir aquilo que pode estar escondido por trás da imagem.

Trinta anos depois de Spielberg e Hergè se terem conhecido, penso que Hergè ficaria satisfeito com o resultado. The Adventures of  Tintin  é absolutamente fiel em relação ao personagem do jovem detective, desde logo pela da opção por respeitar os traços originais de Hergè à forma como o realizador apresenta Tintin ao espectador, logo no começo do filme. Efeito conseguido com uma mistura de animação tradicional com a tecnologia de motion capture. Credite-se a isso, também, o excelente trabalho dos actores que emprestaram o seu talento aos personagens principais: Jamie Bell (o eterno Billy Elliot) e Capitão Haddock (Andy Serkis, que deu movimentos a Gollum de Lord of the Rings e a Caesar de Rise of the Planet of the Apes).

Mas isto não significa que o Tintin de Spielberg só faz sentido "para adultos". Bem pelo contrário: a história das aventuras do jovem detetive em busca dos pergaminhos perdidos do Licorne, capazes de desvendar o segredo de família do capitão Haddock, e o vilão Sackarine, é forte também junto do público que só agora irá descobrir o Tintin de Hergè (as minhas filhas são um bom exemplo disso mesmo).

The Adventures of Tintin é uma espécie de Indiana Jones for kids. As sequências de acção são absolutamente fantásticas, onde o efeito 3D não está interessado apenas em fazer pedras e bananas de dinamite explodirem no nariz do espectador, mas sim em criar uma profundidade de cena que nos faz entrar no mundo de Tintin. Um mundo sem dialécticas, onde a última bala do revólver acerta sempre o alvo, que tem sempre um mapa para o tesouro escondido, a chave do mistério está sempre num país exótico (de preferência no Oriente), o bom da fita safa-se sempre no último segundo e o bem sempre triunfa sobre o mal.

Finalmente, é curioso colocar lado a lado a trajectória do personagem do filme com a do próprio realizador: se The Adventures of Tintin começa e termina no mesmo ponto (este é apenas o primeiro filme de uma série de três; nos outros dois, Steven Spielberg e J.J. Abrams, que aqui entra como produtor, invertem as posições), o personagem do detective também leva Spielberg de volta ao seu ponto de partida, de volta aos filmes onde os heróis, como Indiana Jones, não passam por processos existenciais, crises de consciência ou transformações. Mas, ao contrário de Tintin, que permanece o mesmo uma aventura atrás da outra, é curioso como o filme recente mais "infantil" de Spielberg também seja aquele que mostra que ele... cresceu. Definitivamente.

- Realização: 15
- Argumento: 15
- Interpretações: 15
- Filme: 15

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